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Grifo Real

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A horas tardias, inconformado com a matança que havia marcado de forma trágica as festas de S. Bartolomeu, em que vinte peregrinos e seis aldeões foram bicados na cabeça e uma vaca esventrada à frente do seu macho, Márcio percorreu toda a extensão da charneca à procura do criminoso. O pérfido fora um grifo real, já conhecido por outras vilanias que havia cometido em verões pretéritos.
Márcio gabava-se de ser um conhecedor de pássaros, pois, desde catraio, amestrara periquitos, aves com um feitiozinho muito pouco amistoso. Era no convívio com essas criaturas, muitas delas infanticidas, que encontrara coragem para lidar com o grifo.
Depois de ter espreitado em todos os regos e refegos da lezíria, Márcio encontrou o que procurava. Uma besta solapada num algar, ao vê-lo, abriu a guarda, deu passadas p’ra fora e estacou no relento orvalhado, esticando em frente a plumagem do pescoço, ameaçando investir sobre o jovem.
Ao raiar do dia, Márcio chegou a uma das vedações limítrofes da povoação com uma volumosa e salivada língua de animal a tiracolo, soprando da vista uma madeixa longa que teimava em lhe cair sobre a face direita e lhe velar um olho.

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