Produção Textual

Água na Areia

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Mafud era um mercador de Bagdad que atravessava o deserto à noite e tinha sede. Ali estava ele: de cantil vazio na mão, sem saber o que fazer. E em breve o Sol regressaria, mais quente do que nunca.

Estava ele perdido nestes pensamentos quando caiu do céu um prisma de metal, o qual, num estrondo, fez levantar areia em todas as direções. O mercador aproximou-se do volume e examinou-o. Era um dispensador de água engarrafada. Estupendo… Agora poderia beber toda a água que quisesse. Isso se tivesse dinheiro trocado para introduzir na ranhura das moedas. E não tinha… Onde poderia arranjar moedas?

O mercador baixou o olhar e viu semienterrada na areia uma moedinha e logo a apanhou. Introduziu-a na ranhura, mas… A máquina não estava ligada à corrente. E não havia tomadas ali perto. Desanimado, encostou-se à máquina com vontade de chorar, mas não o fez, pois não queria perder água nas lágrimas.

Deus ajuda os aflitos e enviou-lhe um homenzinho de uniforme com a marca de uma empresa de águas estampado nas costas. Vinha fazer a manutenção do dispensador: recolher as moedas, reabastecer as prateleiras e polir os acessórios. O mercador, eufórico, pediu encarecidamente ao funcionário que abrisse a máquina e lhe facultasse uma garrafita. O homenzinho fez-lhe a vontade: abriu  uma portinhola, enfiou o braço na abertura e retirou de lá uma garrafa. Por fim, estendeu-a ao mercador que a cobriu com os dedos.

Vitória… Depois de tanto tempo sem pinga de água, agora tinha meio litro dela fresquinha nas mãos, mas… A garrafa era de vidro e o gargalo estava selado com uma carica. Sem um abre-latas não havia maneira de a abrir.

Centro Escolar de São Simão de Litém, Turma B, 3.º e 4.º anos de escolaridade

Agrupamento de Escolas Gualdim Pais

Viagem de Balão

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Hermínio era um astrónomo que se cansara de cálculos matemáticos e de leitura  e decidira mudar de vida. Por serem muitas as noites que passava a ler até de madrugada, tinha os olhos vincados de rugas. Cansou-se de ver gravuras de estrelas, de ler os seus nomes nas folhas dos cartapácios e concluiu que estava na altura de subir ao firmamento e de ver de perto os astros que daqui pareciam tão minúsculos.

Com a ajuda de uma tia costureira e de um primo cesteiro, construiu um balão de ar quente, pagou as suas dívidas, vendeu a casa, despediu-se dos amigos e conhecidos e partiu à aventura. Saltou para dentro do cesto de verga, acendeu o bico de gás, soltou as amarras e largou lastro. O balão subiu embalado pelo vento e a paisagem tornou-se pequena lá em baixo. As nuvens foram-se adensando em torno do balão e o céu, gradualmente, foi escurecendo. À medida que a escuridão ia roubando espaço à claridade, uns pontinhos de luz abotoaram-se ao firmamento e foram inchando até se tornarem esferas incandescentes, suspensas no imenso vazio.

Com a ajuda de um monóculo, Hermínio distraiu-se a observar as estrelas e os cometas que cruzavam a Via Láctea em rebanho. Todos os astros tinham faces humanas e ora riam ora choravam como se não soubessem qual era a reação que mais se coadunava com o seu feitio. Os asteroides giravam em voo disciplinado, não sabendo bem para onde mas todos em linha.

Num disco de mármore, limitado por um círculo de colunas altas e brancas, estava sentada numa poltrona uma velha tão velha como o próprio tempo, a contemplar o vasto oceano de estrelas. Em contacto com o seu olhar, as nuvens de gás mudavam de cor e de forma, os planetas alteravam as suas rotas e as estrelas palpitavam em chamas.

– Perdão, espero não estar a incomodar- interpelou o rapaz – mas gostaria de saber, se não for muito incómodo, e se tiver tempo para me ouvir e tempo para responder às minhas perguntas, quem é, o que faz aqui e por que mira o que se passa acolá?

A matriarca fixou-o no seu olhar ressabiado e soprou umas  palavras grisalhas na sua direção:

«- Jovem inconveniente! Se tinhas receio em incomodar era porque havia o risco de isso acontecer e, portanto, teria sido melhor que nem o tivesses tentado! Por tua culpa, uma dúzia de planetas tresmalhou-se do caminho que lhes tracei e uma nebulosa desfez-se em pequenas nuvens. Bastou um segundo de distração para que os astros se descontrolassem e se perdessem na escuridão. Por tua culpa!

«E por que me queres conhecer? Se eu quisesse dar-me a conhecer não estava eu a viver numa placa de mármore a milhões de quilómetros da civilização mais próxima. Nas estrelas vivem aqueles que querem tudo à sua medida e que não suportam o convívio com as outras pessoas e que não gostam de ver questionadas as suas decisões. Eu, por exemplo, traço as órbitas dos planetas, regulo a intensidade do brilho das estrelas, pinto as nebulosas em função das minhas preferências e faço girar as galáxias ou para a esquerda ou para direita mediante a minha vontade. E não aceito palpites de ninguém sobre como devo gerir este quadrante do Universo. Queres conhecer-me? Eu sou eu e nada mais precisas de saber. Agora, desanda daqui para fora, que este quinhão pertence-me.»

Meia dúzia de estrelas escoltaram Hermínio para longe do disco e de regresso a casa. Como é de ver, o astrónomo sentiu-se humilhado e derrotado. Prometeu voltar um dia ao espaço e evitar dar de caras com aquelas criaturas que se tinham assenhoreado das estrelas. Quando regressasse tentaria educar os astros a terem vontade própria. Tentaria educar os astros a conquistarem a sua felicidade e a não obedecerem aos decretos caprichosos dos deuses. Amanhã não. Talvez depois de amanhã.

Liberdade

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A Liberdade é tudo para mim. Eu respiro-a, eu uso-a como roupa, eu bebo-a na minha chávena favorita, enfio-a dentro do pão e engulo-a numa só dentada. Tenho borrifos de liberdade na alcatifa do quarto.

Quando me sinto mais livre, perguntam vós. Quando estou a dormir com os meus ursinhos de peluche, quando corro que nem uma tonta atrás das borboletas, quando viajo até à Atlântida e como lá omeletas numa esplanada, quando saboreio as francesinhas da Samanta, quando me lambuzo a petiscar mel que retiro de um cortiço, quando salpico a roupa com lixívia sem me preocupar se a vou estragar ou não…

Se me concedem liberdade, eu sinto uma onda de energia a percorrer o meu corpo e os lábios esticam-se num sorriso. Pulo em todas as direções e trepo azinheiras e carvalhos.

Sinto-me oprimido quando sou acorrentado a um poste por piratas malvados, quando a roupa me está apertada, quando parto uma perna e sou forçado a estar sentado todo o dia à frente do televisor…

Nos momentos de prisão, sinto uma grande angústia, o coração aperta-se-me no peito e sou capaz de ir ao frigorífico comer tudo o que lá esteja. Eu engordo sempre que estou triste. É uma aflição!